Propostas de acionistas em 2026: governança cresce enquanto ESG perde espaço

Propostas de acionistas em 2026: governança cresce enquanto ESG perde espaço

29 de setembro de 2026

29 de setembro de 2026

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governança cresce enquanto ESG perde espaço

O relatório de fechamento da temporada de assembleias de 2026 nos Estados Unidos, produzido pela D.F. King e publicado no Harvard Law School Forum on Corporate Governance, traz um retrato claro de para onde está indo o ativismo acionário: menos propostas no total, mas um deslocamento nítido de prioridade em direção a temas de governança, enquanto pautas ambientais, sociais e de remuneração perdem força relativa.

Menos propostas no total, porém mais Governança e menos ESG

O número total de propostas de acionistas apresentadas em 2026 caiu quase 25% em relação a 2025, o menor volume registrado na última década.

Ainda assim, mais propostas terminaram indo a votação do que o esperado inicialmente, porque a maioria das empresas optou por decisões conservadoras de exclusão à luz do processo atualizado de “no-action” da SEC para a temporada de 2026 — ou seja, preferiram deixar a proposta ir à cédula em vez de arriscar contestá-la administrativamente.

Dentro desse total menor, o comportamento por categoria foi desigual. As propostas de governança tiveram um salto de quase 50% nas submissões, enquanto as de temas ambientais, sociais e de remuneração caíram em todas as frentes.

Ainda assim, a maioria dos tipos de proposta mais recorrentes manteve — ou até aumentou — seu nível de apoio dos acionistas, o que sugere que o recuo em volume não significa recuo de relevância para quem de fato vota.

Números

Nas propostas ambientais, nenhuma foi aprovada por maioria em 2026, mas o apoio médio subiu 33% — um contraste importante com cinco anos atrás, quando quase a metade das propostas ambientais recebia apoio majoritário.

Propostas sobre emissões de gases de efeito estufa continuam sendo as mais frequentes nessa categoria, e mesmo com menos submissões, seu apoio médio cresceu 50%. Quatro investidores — Amalgamated Bank, As You Sow, Green Century Capital Management e Trillium Asset Management — responderam por pelo menos 80% das propostas ambientais que chegaram à cédula.

Do lado social, propostas “anti-ESG” continuam sendo o tipo mais submetido, mesmo com queda de quase um terço no volume, e seguem com apoio médio muito baixo, de 1,3%.

Já as propostas sobre contribuições políticas e lobby foram a única categoria social a atingir níveis de apoio na faixa dos 40%, e temas ligados a inteligência artificial — como riscos de uso não ético de dados e eliminação de viés em modelos — continuam ganhando espaço entre as novas pautas apresentadas.

Governança em alta, mas com menos vitórias, e um ano positivo para Say-on-Pay

O dado mais chamativo do relatório está na categoria de governança: apesar do salto de quase 50% nas submissões, o número de propostas que efetivamente recebeu apoio majoritário caiu quase à metade.

Propostas pedindo presidente do conselho independente triplicaram em volume frente a 2025, e as que pedem consentimento por escrito (“written consent“) mais que quadruplicaram.

Outros temas recorrentes incluíram redução de cláusulas de supermaioria, limiares para convocação de assembleias extraordinárias, fim da estrutura de conselho escalonado, separação entre presidente do conselho e CEO, recapitalização para uma ação-um voto e políticas de renúncia de conselheiros.

Vale notar que acionistas individuais atuantes, como John Chevedden, responderam por pelo menos dois terços das propostas de governança submetidas — um indicativo de que parte relevante desse movimento vem de investidores minoritários organizados, não apenas de grandes gestoras.

Na frente de remuneração, o retrato foi mais favorável às empresas: as reprovações de Say-on-Pay (direito de voto sobre a política remuneratória) caíram quase 60% em relação a 2025, enquanto o apoio médio geral se manteve estável.

Os planos de participação acionária (equity plans) continuam com apoio forte, ainda que levemente menor que no ano anterior — apenas seis empresas não atingiram maioria para seus planos.

Nos casos em que a ISS recomendou voto contrário ao Say-on-Pay (11,2% das propostas), o apoio médio ficou cerca de 20 pontos percentuais mais baixo do que quando a recomendação foi favorável — um lembrete de como a posição das proxy advisors continua pesando na decisão final dos investidores.

Entre as propostas de remuneração apresentadas por acionistas (cerca de 23 no total, das quais 52% foram a voto), as que pediam submissão de acordos de rescisão (severance agreements) a voto dos acionistas foram as mais comuns e as que receberam maior apoio — sendo, inclusive, o único tipo de proposta de remuneração aprovado por maioria em 2026.

Conclusão

Para conselhos e áreas de relações com investidores que acompanham tendências internacionais de governança, o quadro de 2026 reforça um ponto que já vem se consolidando: o crivo do mercado está migrando de pautas amplas de ESG para exigências mais diretas de estrutura de poder e prestação de contas — presidência independente, direitos de voto equilibrados e transparência sobre remuneração de executivos.

É esse tipo de sinal, vindo de mercados mais maduros em engajamento acionário, que ajuda empresas familiares e de capital aberto a se anteciparem antes que a mesma pressão apareça em suas próprias assembleias.

Referência:

AHMADI, Zally. 2026 proxy season: shareholder proposals. Harvard Law School Forum on Corporate Governance, Cambridge, 31 ago. 2026. Disponível em: https://corpgov.law.harvard.edu/2026/08/31/2026-proxy-season-shareholder-proposals/. Acesso em: 18 set. 2026.

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