Governança Corporativa e a influência do setor de atuação

Governança Corporativa e a influência do setor de atuação

Setor de atuação

5 de agosto de 2026

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Um dos hábitos mais comuns na adoção de práticas de governança corporativa é aplicar o mesmo modelo a empresas de setores completamente diferentes, como se conselho, remuneração e divulgação funcionassem da mesma forma em qualquer contexto.

Um estudo que comparou quatro setores da economia americana, químicos, máquinas, eletrônicos e serviços empresariais, mostra que essa suposição não se sustenta: os mesmos mecanismos de governança e os mesmos padrões de divulgação produzem efeitos diferentes, e às vezes opostos, conforme o setor.

Não existe uma “melhor prática” universal

Um erro recorrente na discussão sobre governança corporativa é assumir que existe uma “melhor prática” universal, válida para qualquer empresa, independentemente do setor em que atua.

Um estudo com 120 empresas americanas, distribuídas igualmente entre quatro indústrias, químicos, máquinas e equipamentos, eletrônicos e serviços empresariais, testou diretamente essa suposição, comparando os efeitos de governança e divulgação sobre o risco financeiro em cada setor separadamente, além de no conjunto agregado.

Os resultados setoriais divergem de forma marcante.

A independência do conselho aparece fortemente associada a menor risco financeiro no setor de eletrônicos, mas não produz o mesmo efeito em químicos, máquinas ou serviços empresariais.

O tamanho do conselho reduz o risco em serviços empresariais, mas é irrelevante nos demais setores. A remuneração executiva, que na análise agregada aparece associada a mais risco, na verdade está associada a menos risco especificamente no setor de máquinas.

Um teste estatístico específico, que compara o modelo único com os modelos por setor, confirma que essas diferenças não são acaso: a estrutura de governança que funciona em um setor genuinamente não é a mesma que funciona em outro.

O mesmo padrão se repete, de forma ainda mais nítida, na divulgação voluntária. A divulgação não financeira e ambiental, social e de governança está associada a menos risco financeiro no setor de máquinas, mas a mais risco em eletrônicos e em serviços empresariais.

Um mesmo relatório de sustentabilidade, portanto, pode ser lido pelo mercado como sinal de transparência genuína em um setor e como sinal de resposta a problemas em outro. Isso acontece porque setores diferem na intensidade de ativos, no ciclo de inovação, na exposição regulatória e no que os públicos de interesse esperam ver comunicado.

Essa constatação tem uma consequência prática importante para qualquer organização que estrutura sua governança olhando apenas para benchmarks genéricos de mercado.

Copiar não é o caminho

Copiar a composição de conselho de uma empresa de outro setor, ou replicar a política de remuneração de um concorrente que atua em um segmento com dinâmica de risco distinta, pode não produzir o mesmo resultado, e em alguns casos pode até ser contraproducente.

Calibrar governança e divulgação ao perfil de risco específico do setor, à intensidade de capital, ao ritmo de inovação e à natureza da fiscalização regulatória, é mais eficaz do que perseguir um padrão único considerado “boa prática” de forma genérica.

Definir governança corporativa como um exercício de conformidade padronizada, aplicável a qualquer empresa da mesma maneira, é subestimar sua função real. Governança eficaz nasce do diagnóstico do contexto específico do negócio, não da cópia de um modelo importado de outro setor.

As empresas que entendem essa diferença tendem a construir conselhos e políticas de divulgação genuinamente alinhados ao seu próprio perfil de risco, em vez de simplesmente parecerem bem governadas no papel.

Referência:

IFARANMAYE, Rotimi. Corporate governance, voluntary narrative disclosures and financial distress: evidence from U.S. non-financial industries. Cogent Business & Management, v. 13, n. 1, e2670776, 2026. DOI: https://doi.org/10.1080/23311975.2026.2670776.

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