Conselho de administração eficaz: perto para entender o negócio, independente para desafiá-lo
Conselho de administração eficaz: perto para entender o negócio, independente para desafiá-lo
23 de outubro de 2026
23 de outubro de 2026

Governar uma organização hoje exige mais do que experiência de gestão. É preciso compreender riscos, questionar decisões e garantir que estratégia, responsabilidade e visão de longo prazo caminhem juntas.
Essa é a linha da entrevista de Ana Serzedelo, diretora-geral do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG), publicada pelo Jornal de Negócios na série Formação para Executivos 2026.
A síntese da entrevista cabe em uma frase:
“Um board eficaz deve ser suficientemente próximo para compreender o negócio, mas suficientemente independente para o desafiar.”
Proximidade sem independência leva à complacência. Independência sem proximidade leva a um conselho que opina sem conhecer a operação. O conselho de administração eficaz é o que consegue sustentar essa tensão.
O conselho vale pelo conjunto, não pelos perfis isolados
Ao comentar quais competências os conselhos buscam, Serzedelo lembra que o Código de Governo das Sociedades, referência em Portugal, olha para a composição do órgão como um todo.
A recomendação é que o número e as qualificações dos administradores não executivos assegurem uma diversidade equilibrada de competências, conhecimentos e experiências. O mesmo vale para o órgão de fiscalização.
Diversidade, nesse contexto, inclui formações acadêmicas, trajetórias profissionais, experiências em diferentes geografias, diferenças culturais e de gênero. Por isso, a escolha de um novo conselheiro deve partir das necessidades concretas da empresa e de um diagnóstico do conselho atual:
- Que competências o conselho já tem?
- Quais estão faltando diante da estratégia e dos riscos do negócio?
- Que perspectivas precisamos acrescentar para melhorar a qualidade da decisão e o escrutínio dos riscos assumidos?
Governança corporativa como
ferramenta de liderança
Para a diretora do IPCG, a governança corporativa não é um custo de conformidade, e sim uma ferramenta de liderança. Um conselho diverso, com conhecimentos e perfis adequados estratégia, apoia o líder: a qualidade do debate, a diversidade de perspectivas e o escrutínio construtivo ajudam a formar uma opinião mais completa, questionar pressupostos, antecipar riscos e decidir melhor.
Um bom sistema de governança, resume ela, ajuda a decidir melhor, a executar com mais disciplina e a garantir que as decisões sejam escrutinadas e tomadas com integridade. Um conselho mais relevante e mais bem informado sustenta uma estratégia de longo prazo mais consciente e resiliente.
Formação de conselheiros para
decidir sob incerteza
A entrevista também trata da formação executiva.
Gerir organizações significa, cada vez mais, enfrentar problemas complexos e decidir em ambientes de alta incerteza. Por isso, a formação deve apoiar a qualidade da decisão, e não apenas transmitir ferramentas de gestão.
Além da atualização contínua, Serzedelo destaca o pensamento crítico: questionar pressupostos, interpretar perspectivas diferentes e decidir com informação incompleta. A formação deve preparar líderes não só para gerir o que conhecem, mas para decidir diante do que ainda não conhecem.
Ética, transparência e qualidade da decisão, segundo ela, devem atravessar todo o conteúdo, da estratégia às finanças, pessoas, tecnologia, risco e sustentabilidade. A recomendação é trabalhar com casos práticos que coloquem os participantes diante de ambiguidade, interesses divergentes e dilemas reais.
Não basta saber o que fazer: é preciso entender como decidir, que informação e que riscos considerar e como prestar contas. Governança não é só para empresas listadas. O ponto final da entrevista conversa diretamente com a realidade brasileira.
Médias empresas e empresas familiares enfrentam mais concorrência, mais exigência de transparência por parte de financiadores e clientes e aceleração tecnológica. Nas familiares, somam-se a sucessão e a relação entre família, propriedade e gestão.
Quanto mais complexa a organização e o seu contexto, maior a necessidade de um sistema de governo adequado. Não por acaso, o IPCG está preparando os Princípios IPCG para Médias Empresas, voltados aos desafios específicos desse público.
Conclusão
Um conselho eficaz não nasce de nomes de peso, mas de uma composição pensada a partir da estratégia, de conselheiros que conhecem o negócio sem perder a independência e de investimento contínuo na qualidade da decisão.
A C&S Governança Corporativa apoia empresas na estruturação, composição e avaliação de conselhos de administração e consultivos.
Referências
SERZEDELO, Ana. Um board eficaz tem de compreender o negócio e desafiá-lo. Entrevista. Jornal de Negócios, c-studio, Formação para Executivos 2026. Disponível em: https://www.jornaldenegocios.pt/cstudio/formacao-para-executivos-2026/detalhe/um-board-eficaz-tem-de-compreender-o-negocio-e-desafia-lo
INSTITUTO PORTUGUÊS DE CORPORATE GOVERNANCE (IPCG). Notícias recentes, 01 out. 2026. Disponível em: https://www.cgov.pt/noticias/noticias-recentes/2089-um-board-eficaz-deve-ser-suficientemente-proximo-para-compreender-o-negocio-mas-suficientemente-independente-para-o-desafiar



