Empresa familiar resiste melhor à crise? O que diz a pesquisa
Empresa familiar resiste melhor à crise? O que diz a pesquisa
9 de outubro de 2026
9 de outubro de 2026

As empresas familiares são mais resilientes em uma crise?
E um conselho de administração bem estruturado faz diferença quando o cenário muda de uma hora para outra? Um estudo publicado em 2026 no European Journal of Family Business usou a pandemia de COVID-19 como um “experimento natural” para responder a essas perguntas. A
s conclusões interessam a qualquer empresa que esteja revisando sua governança corporativa.
O que o estudo analisou
A pesquisadora Karen Watkins-Fassler (Tecnológico Nacional de México e UNIR) acompanhou 83 empresas listadas na Bolsa Mexicana de Valores entre 2014 e 2023, somando 790 observações. Cerca de 37% da amostra eram empresas familiares, definidas como aquelas em que uma família detém pelo menos 50% das ações com direito a voto.
Para medir a qualidade do conselho, o estudo criou um Índice de Qualidade do Conselho com quatro atributos clássicos de governança:
- Proporção de conselheiros independentes;
- Participação de conselheiros não executivos;
- Separação entre os cargos de CEO e presidente do conselho;
- Diversidade de gênero no conselho.
O desempenho foi medido por dois indicadores: o retorno sobre ativos (ROA), que reflete a eficiência operacional, e o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE), que reflete o retorno ao acionista.
Principal achado: o endividamento pesou mais que o controle familiar
O resultado mais forte do estudo não tem a ver com quem controla a empresa, e sim com sua estrutura de capital. A alavancagem teve efeito negativo, intenso e consistente tanto no ROA quanto no ROE.
Em números: um aumento de 10 pontos percentuais na relação dívida/ativos esteve associado a uma queda de cerca de 0,54 ponto percentual no retorno sobre ativos.
Já o controle familiar, isoladamente, não produziu desempenho melhor nem pior durante a pandemia. Depois de considerar as características próprias de cada empresa e seu nível de endividamento, as empresas familiares não foram mais resilientes nem mais vulneráveis que as demais.
O papel do conselho: proteção ao acionista
A qualidade do conselho mostrou uma associação positiva com o ROE durante a crise, embora com significância estatística apenas marginal. Não houve associação relevante com o ROA.
Em outras palavras, conselhos mais independentes, diversos e com separação de funções parecem contribuir mais para proteger o valor do acionista do que para elevar a eficiência operacional no curto prazo.
A autora interpreta que conselhos de maior qualidade atuam sobretudo nas decisões de política financeira, na alocação de capital e na comunicação com investidores. Esses canais ajudam a preservar a confiança do mercado mesmo quando a operação está pressionada.
O estudo também testou se um bom conselho “turbinaria” a resiliência das empresas familiares em particular. Esse efeito moderador não foi confirmado.
O que isso significa na prática
O estudo foi feito no México, mas o contexto de alta concentração acionária e de proteção ao investidor ainda em evolução é semelhante ao de outros mercados emergentes, como o Brasil.
Alguns pontos merecem atenção:
A disciplina financeira é a primeira linha de defesa. Manter níveis sustentáveis de endividamento e flexibilidade financeira pesa mais na resiliência de curto prazo do que a forma de controle da empresa.
Ser empresa familiar não é vantagem automática. A chamada “vantagem familiar” depende do contexto, da estrutura financeira e dos arranjos de governança.
Um conselho bem estruturado protege valor. Independência, diversidade e separação de poderes contribuem para proteger o acionista, ainda que não se reflitam de imediato nos resultados operacionais.
A governança deve ser integrada. Estrutura de capital, composição do conselho e modelo de propriedade precisam ser avaliados em conjunto, e não como agendas separadas.
Para reguladores, a autora sugere que fortalecer padrões de governança aumenta a confiança do mercado, mas deve vir acompanhado de políticas que facilitem o acesso a financiamento estável e reduzam a alavancagem excessiva.
Limitações
O estudo cobre apenas empresas listadas de um único país e usa um índice que agrega os atributos do conselho. A própria autora recomenda novas pesquisas comparando países e analisando cada atributo separadamente.
Conclusão
Nem o controle familiar nem um conselho de alta qualidade garantem, sozinhos, um desempenho superior em uma crise. O que a evidência aponta é uma combinação: estrutura de capital prudente como base e um conselho qualificado como mecanismo de proteção ao acionista e de credibilidade junto ao mercado.
Referência (ABNT)
WATKINS-FASSLER, Karen. When governance matters: board quality, family control, and firm performance in times of crisis. European Journal of Family Business, Málaga, v. 16, n. 1, p. 37-49, 2026. DOI: https://doi.org/10.24310/ejfb.16.1.2026.23065.



